O alerta soou pouco antes do jantar.

Aquele som que a gente já conhece, que o corpo reconhece antes da mente processar. Fiquei parada por um segundo com a pergunta que toda mãe em zona de conflito aprende a fazer em silêncio: finjo naturalidade ou deixo a tensão aparecer?

E no meio desse pensamento, olhei em volta.

A mesa estava posta. Com cuidado, o tipo de cuidado que não acontece por acidente, que alguém decidiu ter. Foi meu filho quem arrumou. Do lado de dentro, meu outro filho tinha cozinhado. A comida estava lá, quente, feita por mãos que há pouco tempo mal alcançavam o fogão. E no canto, o terceiro filho comentava, de passagem, sobre como estava sendo voltar para as aulas online — e em uma frase casual eu ouvi a dedicação dele com a matemática, a seriedade que ele não anuncia mas exerce.

Três filhos. Três pontos diferentes de maturidade. Três áreas diferentes de se tornarem pessoas.

Ali, na minha frente, num domingo qualquer em Doha, com o céu ainda ecoando lá fora.


Tive três filhos em cinco anos. Engravidei com 21. O corpo aguentou bem. A mente também. Mas o emocional ficou pra trás — eu tinha pouco conhecimento e pouca maturidade pra bancar as escolhas que fiz e pagar o preço da vida que eu queria dar a eles.

Eu fiz o melhor que pude, todos os dias. Mas muitas vezes não foi suficiente. E eu não era a única que arcava com as consequências.

Pra uma mãe, isso é devastador.

A culpa que vinha disso era excruciante. Eu chegava no fundo do poço com uma frequência que eu não conseguia mais suportar. As coisas pareciam pequenas — gritar, demorar pra acordar, a rispidez se esgueirando no tom da minha voz, essas coisas miúdas do cotidiano. Mas foram se acumulando até virar uma urgência enorme: eu precisava me salvar delas mesmas. Salvar meus filhos de mim.


Sempre tive medo de arrependimento. Não o de quem erra sem saber — o outro, o que dói mais. O de quem sabia, e escolheu diferente mesmo assim.

Mas havia uma distinção que eu demorei pra entender: saber o que é certo e não conseguir fazer não é a mesma coisa que não querer. Eu não tinha recursos. Não tinha ajuda. Não tinha ferramentas. A batalha era comigo mesma — e ao mesmo tempo, era pra conseguir o suporte que me permitisse ser quem eu sabia que precisava ser.

Pra mim, esse tipo de arrependimento significa desperdício de vida. E eu sempre fui apaixonada por viver de verdade.

Esse medo virou bússola, desde criança. Se eu sabia melhor, precisava ser melhor.

Maio/2020 - Dias difíceis de terapia me levavam, e ainda faço isso, a longos períodos de reflexão

Desde 2019, entrei em terapia. Li. Assisti palestras. Fiz cursos. Meditei. Aprendi tudo que conseguia pensar em aprender. Não foi uma escolha consciente no início — foi instinto. O mesmo instinto que sempre me moveu: evitar o arrependimento a qualquer custo. Se eu não tinha suporte que precisava, eu fui atrás de me tornar.

O medo de arrependimento me moveu pra me tornar o que eu não tive.


Naquele domingo, com o alerta ainda fresco no corpo e a mesa posta na minha frente, eu entendi.

Não de forma dramática. Sem revelação, sem lágrimas. Foi quieto — do jeito que as coisas verdadeiras costumam ser.

A Rebeca de 2019 que escolheu esse caminho, que fez as perguntas difíceis, que mergulhou fundo em si mesma — ela estava sentada à mesa também. Em cada prato. Em cada gesto de cuidado que meus filhos aprenderam sem que eu precisasse pedir.

Foram as minhas escolhas que me trouxeram ate aqui.

Todo esforço estava valendo. Muito.

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