Sempre fui criativa, sempre gostei de fazer coisas com as mãos — LEGO, bijuterias, cozinha, perfumes. Crio num processo de extravasamento de mim mesma: regulação emocional e puro e belo prazer.
Escrevo também desse lugar de quem sente certo peso em existir — em saber que sei pouco e querer muito, em conhecer bem meus limites a essa altura da vida, e desejar profundamente evoluir enquanto ser humano. Habitar o lugar de quem está evoluindo, isso já me custa mais.
Sou uma buscadora por natureza. Busco melhorar minha cultura, minhas crenças, minha linguagem; desejo ardentemente evoluir minha moral, me despir de preconceitos e armaduras que um dia usei. O aprimoramento é valor intrínseco em mim. A diligência e o idealismo não me largam, me desassossegam. Mas quando pego um pincel e não sei bem como segurá-lo, sei que o mais sensato é segurá-lo de novo, e de novo, tantas vezes que meus dedos se tornem estranhos a mim — e parte do cabo. Seria razoável supor que quem tanto deseja aprender encontrasse nisso algum deleite. Pois lhe digo: não é, nem de perto, a minha sensação.
Muitas vezes me pego fugindo do desconforto de ainda não ser, ainda não saber — sem saber, tampouco, como habitar o espaço entre o que sou agora e o que desejo me tornar. Desistir, porém, não é uma saída que me cabe. Sigo na gangorra entre quem consigo ser hoje e quem me torno aos poucos, e a alternativa que me resta é tentar aproveitar o caminho. A cada vez obtenho mais êxito nisso — mas não sem sentir, de novo, a angústia e a impaciência de ainda não saber o que tanto quero descobrir.
Crio muitas vezes de um frenesi passional — escrevo capítulos inteiros de vidas que nunca vivi, quero pintar lugares onde nunca estive, colorir criaturas por métodos que ainda desconheço. O não saber me veste torto, apertado sobretudo diante do que deveria ser livre. Ao longo dos anos, as mãos que se divertiam no LEGO, que escreviam redações desobrigatoriamente — sim, por puro prazer —, foram se tornando as mãos que hoje não se lembram muito bem de como segurar um pincel.
O não saber me veste torto
O que a vida fez de mim, ou o que eu fiz do que a vida me trouxe?
Cá estou eu agora, com lápis de cor e uma folha de papel — reaprendendo, não desistindo, criando comigo a paciência que já sei ter com os outros. Este era o autocuidado que eu tinha para me dar hoje.
